O olhar de Simone Carleto
"O projeto Raízes
Naturalistas, da Cia Ocamorana de Pesquisas Teatrais vem à cena cumprir uma
importante tarefa, considerando os compromissos éticos de um teatro de pesquisa
continuada, no cenário das investigações épicas e/ou ditas pós-dramáticas contemporâneas.
Muito especuladas em camadas acadêmicas e em redes sociais, além dos circuitos
mais ou menos restritos da cena teatral que poderia ser considerada
alternativa, as experimentações de todo tipo estão vigentes na cena paulistana
do teatro de grupo incentivado pela fundamental Lei Municipal de Fomento ao
Teatro para a Cidade de São Paulo, entre outras iniciativas menos aprofundadas
permitidas pelos recursos de outros editais. Digo menos aprofundadas pelo
escopo dos projetos em seus tempos reduzidos de realização, não se tratando de
menosprezar as inventividades de tais projetos, mas considerando ainda o fenômeno
denominado editalização, pela pesquisadora Fernanda Perniciotti, ao tratar da
conformação das produções artísticas a partir da tentativa de enquadramentos em
editais.
O Ocamorana se lançou em um conjunto de ações muito bem articuladas para
dar conta de colher das raízes tubérculas do teatro épico a partir das rupturas
que representaram o exercício do naturalismo. Como decorrência no realismo
enfocando personagens e histórias da classe trabalhadora, o naturalismo
representa um das chaves para ao entendimento de como se projetar um diálogo
para além do público burguês daquele período no qual surgiu a estética. Assim,
faz parte dessa contextualidade olhar para as iniciativas de organização
teatral e de suas formas de produção, envolvendo criação, espaços e socialização
da produção com diferentes públicos. Envolve, ainda, refletir sobre as formas
de financiamento teatral, reflexão a partir da quais e originaram iniciativas
de teatros “livres" em diversas partes do mundo. E, ainda,
fundamentalmente gerando também a estruturação das pesquisas teatrais e dos
processos de formação de atores e atrizes, em perspectiva acumulativa dos
conhecimentos gerados até então, do reconhecimento de suas vertentes populares
ancestrais, assim como da compreensão coletivo colaborativa, abarcando
diferentes funções artísticas gerando as dramaturgias no plural, já que o texto
passa a ser ponto de partida e não mais de chegada, quando se seguia as indicações
do autor. Assim, as criações e atoralidades são desejáveis tendo em vista que
atores e atrizes propõem interpretações, não estando colados a uma única forma
de desenvolver a cena, mas cocriando-a, se relacionando com as proposições das
outras pessoas artistas envolvidas na montagem e/ou encenação.
Márcio Boaro atua como dramaturgo e diretor em Alforrias de Papel, peça
projeto dentro da proposta das Raízes Naturalistas. Experiente estudioso do
teatro, oriundo dos Seminários de Dramaturgia do Teatro de Arena, coordenados
pelo Chico de Assis e com participação de outras tantas figuras do teatro
brasileiro, Boaro investe com maestria nas páginas de Alforrias, apenas
inspirado na obra literária O Cortiço, de Aluísio Azevedo. A peça de Boaro é deslumbrante,
ao tratar de forma metalinguística a própria questão no naturalismo como
construção social. Ele faz referências a outras estéticas com as quais o
naturalismo dialoga, considerando as rupturas do drama ao longo da história,
como o expressionismo, construindo o percurso ao que Brecht sistematizou como
teatro épico dialético. Esse trabalho traz potencial altamente formativo, pois
ao mesmo tempo que investe em dramaturgia, algo imprescindível na atualidade
como artesania teatral, possibilita mesmo àquelas que não poderão reconhecer as
estruturas da peça, o contato com suas formas ditas características, tendo em
vista o imbricamento temático e formal que Márcio Boaro consegue com sua
escrita e tecido dramatúrgico.
Na linha de construir coletivamente, um dos pontos altos da montagem é a
interpretação de todo o elenco, que foi construída com a articulação de
conhecimentos de André Capuano, Manuel
Boucinhas, Maria Carolina Dressler, Mônica Raphael e
Nica Maria, e com parte dos estudos de construção das intenções,
a partir do trabalho de André Capuano. Percebe-se a apropriação do texto por
parte dos atores e atrizes em cada palavra articulada, proferida com segurança
e criatividade. Nesse tipo de teatro que se assume político essa preocupação é legítima,
pois sabe-se o quanto produções comerciais são articuladas ao “bem-feito” propagando
tantos e tantos valores que poderiam ser questionados, mas a chamada qualidade
parece impedir críticas. Assim, a recíproca é verdadeira e solicita de nós o
bem-feito, o compromisso ético e estético. A personagem Espectro, representada
por Nica Maria, e que surge já
na primeira cena,
em contracenação com Manuel Boucinhas, é fabular ao sistematizar os
modos de operação do sistema capitalista em diferentes períodos históricos. A falsificação de uma carta
de alforria vista de modo distanciado no tempo e teatralizada, espelha a
multiplicidade de mecanismos do sistema para manutenção dos esquemas de
poder. Trata-se de uma cena simbólica do que virá durante a encenação,
antecipando o "a que veio” da obra.
O espetáculo
em cartaz em segunda temporada vem
ganhando nuances no sentido da encenação estar também costurada a essa
camada do teatro épico, no qual as transições são precisamente efetivas na
construtura do imaginário que possibilita que o público assuma pontos de vista
com relação ao apresentado, compreendendo ainda seu papel ativo na imaginação
da fábula, mas também do que poderia ser denominada arquitetura da encenação
proposta por Boaro. Ou seja, as transições, ao meu ver, são oportunidades para
que a camada subjetiva-objetiva da encenação que se constrói coletivamente e
colaborativamente, ganhe tridimensionalidade no palco, de modo a expor a concepção
geral de uma obra épica e de sua ambição corajosa de transformar a cena e a
sociedade.
As relações tecidas entre o trabalho da mulher, trabalho não remunerado
e seu papel na sociedade são uma achado surpreendente dentro da peça, da cena e
da interpretação de Mônica Raphael, tarimbada e forjada no teatro épico, ela
surge como uma Mãe-Coragem-Feminista-Comunista, de uma sensibilidade revolucionária
capaz de essencializar processo longínquo e ancestral de luta de todas nós. A
cena pode inclusive ser apresentada como um excerto unipersonal, em diferentes
espaços. É como se pudéssemos assistir à fábula da peça, encenada e viva ali em
nossa frente. Momentos com esse potencial existem em diversos movimentos da peça,
e poderão ser destacados com o margear das transições de cena. Do mesmo modo, a
funcionalidade da movimentação gestual é para Brecht um importante elemento de
alicerçamento do estranhamento, por esse motivo a importância de sua precisão e
teatralidade. A assistência de direção ficou a
cargo de João Alves, também responsável
pela iluminação. A direção musical é de Fernando Oliveira, também
responsável pela
composição musical e e execução, em
conjunto com Danilo Pinheiro. O cenógrafo é Dan Maaz, com concepção
de Márcio Boaro. Os figurinos
são de Nica Maria e a costura de Iara dos Reis. A preparação corporal e vocal é feita
por André Capuano.
Com toda essa construção, as cenas do espetáculo vão gerando acúmulos de
sensações, referências e significados, fornecendo ao enredo relações e conexões
profundas com o passado social e da encenação, assim como presentifica
metodologia de trabalho autoral e contemporâneo de grande contribuição para uma
cena que se articula ao seu tempo, de modo consoante aos principais desafios
colocados no contexto vivido: produzir um teatro que dialogue com cada vez mais
pessoas, de modo qualitativo, e que as percepções do público possam reverberar
no espaço teatral, e também muito além da ficção, permanecendo nos corações e
mentes como aprendizado coletivo."
Confira a matéria na íntegra em Amar(gem)
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