Breve relato sobre Preparação de Voz e Corpo por André Capuano
Este é um breve e
limitadíssimo registro sobre o trabalho que desenvolvi como preparador corporal
e vocal junto às atrizes Maria Carolina Dressler, Mônica Raphael e Nica Maria, e o
ator Manuel Boucinhas, no projeto Raízes Naturalistas, da Cia Ocamorana. Para
ser mais preciso, tratou-se de um trabalho de investigação de atuação, que
passou por voz e corpo.
O trabalho de atuação em teatro é
extremamente complexo, composto pelas linhas declaradamente escolhidas para
investigação em cada processo e também pela totalidade composta por repertório
cênico, vivência, imaginário, detalhes, nuances, sutilezas, desejos, conceitos,
memória, jogos, escolhas políticas, etc, que cada atriz e ator constrói no
decorrer de seu ofício. Essa totalidade opera em jogo com as necessidades de
cada criação de espetáculo e com as proposições de treinamentos realizadas
nesses processos teatrais. Somente reflexões aprofundadas e escritas cuidadosas
nos aproximariam, com o mínimo de responsabilidade e respeito necessários, da
realidade da atuação teatral de qualquer espetáculo.
Respeito e
responsabilidade não são sinônimos de “melindre” ou “passada de pano”, nem
mesmo de “sacralização do trabalho de atuação”.
Defendo que a atuação precisa ser pensada, criticada e debatida. E que
isso deva ocorrer para além dos rápidos comentários nos corredores ou WhatsApp
após as sessões dos espetáculos, na maioria das vezes direcionados a outras
pessoas que não as atrizes e os atores. O pensamento crítico sobre atuação
poderia superar a ideia ainda bastante presente de verticalidade no teatro, na
qual o trabalho de atuação é visto quase como uma prestação de serviço
terceirizada e sem consciência, mais ou menos qualificada, encomendada pelos
reais criadores, ou seja, pelas pessoas responsáveis pela direção e/ou pela
dramaturgia.
Debates mais
aprofundados poderiam ampliar coletivamente o conhecimento sobre o trabalho de
atuação no teatro. Atores e atrizes têm muito o que contribuir para o
pensamento teatral brasileiro, especialmente atores e atrizes oriundos de
grupos teatrais com continuidade de pesquisa.
Internamente, no
processo do projeto Raízes Naturalistas, que se desdobrou na criação do
espetáculo Alforrias de Papel, ocorreu a horizontalidade de criação e uma
reflexão aprofundada sobre atuação. Desde o início da pesquisa sobre o
Naturalismo, refletíamos sobre a atuação nessa linguagem, em pé de igualdade
com dramaturgia, encenação, contexto histórico e filosofia.
Mais adiante, já
na etapa de criação e encenação do espetáculo, nosso foco não se desviou da
investigação do trabalho de atuação. Assim que as primeiras cenas foram
escritas por Márcio Boaro, começamos a pensar como atuaríamos em jogo com o
texto. Nesse momento, assumi a função de preparador corporal e vocal. Em um
primeiro momento resisti, porque eu também estava em cena. Mas o grupo tinha se
construído como um coletivo de confiança plena entre as pessoas integrantes,
assim confiei no convite para conduzir esse trabalho.
Depois das
primeiras leituras de algumas cenas, optei por um caminho de investigação que
utilizei em alguns trabalhos anteriores, em contexto de sala de aula e também
de criação com outros coletivos. Em Alforrias, trabalhamos fundamentalmente com
um jogo cênico a partir do VERBO DE AÇÃO.
Trata-se de uma
“ferramenta” de treinamento e atuação (talvez pudéssemos chamar de método),
dentre outras que desenvolvi em parceria com dezenas de artistas e grupos
teatrais em quase trinta anos de trabalho na cena. Em trabalhos anteriores, o
jogo com o VERBO DE AÇÃO foi utilizado com menos continuidade, ou de modo menos
determinante, porque o tempo era curto, ou porque diversas ferramentas se
tornaram necessárias e ganharam o protagonismo do treino e da investigação de
atuação.
Resumidamente,
esse jogo consiste em verificar qual é o verbo de ação de cada momento da cena,
exercido por cada personagem, e atuado por cada ator ou atriz. A partir desse
estudo, o verbo é corporificado, é tornado uma ação física real. O mais real e
inteiro que o ator ou a atriz conseguir realizar com seu corpo. Posteriormente,
o corpo em ação vocaliza o verbo. Assim, corpo e voz em conjunto afirmativo
realizam a ação, materializam o verbo. A esse conjunto chamamos matriz. Através da matriz conquistada e passível
de repetição cada vez mais real, os atores e atrizes realizam as ações da peça,
incluindo o texto falado, isto é, as ações vocais.
Desse modo, tudo
o que escapa do cerne da cena, do objetivo da cena, fica evidente e aos poucos
pode ser abandonado. A concretude da matriz criada pelo verbo de ação tem a
força para explicitar os elementos que entram na cena apenas por convenção, por
costume, que muitas vezes atrapalham a realidade singular da cena em questão.
Materializar o
verbo é relativamente simples, mas afirmar a matriz em cena, destruindo alguns
elementos incoerentes à especificidade de determinada cena, os quais cada ator
e atriz carrega consigo de processos passados (no palco e na vida), é por vezes
dificílimo.
No processo de
Alforrias de Papel tentamos até a última sessão. Muitos desses elementos
prejudiciais à concretude da cena foram destruídos durante toda a temporada,
outros voltavam vez ou outra, outros não conseguimos vencer, alguns talvez não
tenhamos nem percebido, de tão enraizados que estão. Mas tentamos
coletivamente. Todos nós enfrentamos com confiança no jogo e uns nos outros
essa tarefa. Falar “de verdade”, seja lá qual for “a verdade” dessa ou daquela
cena. Sem pressupostos e preconceitos. Tentando nos desvencilhar de regras
mortas, muitas dessas regras que são fantasiadas de um único teatro possível e
válido.
Os
verbos de ação podem ser muitos, desde os mais cotidianos, como mandar,
seduzir, obedecer, até os mais teatrais, como poetizar, criar imagem na cabeça
do público, explicitar estranhamento, soltar palavra. Sobre as matrizes podem
ser aplicados “filtros”, como ampliação de tamanho de gesto, ineficácia,
velocidade, força, etc. Também pode-se focar em modos de realizar a ação. Entre
muitas outras composições. Por isso, é um trabalho que pode servir de base para
qualquer linguagem, das menos às mais estilizadas. Para o estudo do naturalismo
se mostrou muito potente.
A seguir, compartilho a maneira como Márcio Boaro em diálogo comigo
registrou por escrito as etapas do trabalho com o VERBO DE AÇÃO:
“Tentei sistematizar o método que o Capuano está usando para criar as partituras vocais e corporais para as cenas. É interessante notar que o método que ele está utilizando parte do texto, o entendimento, expressão do entendimento e volta para o texto. Não sendo em nada aleatório”. (Mensagem de Márcio Boaro no WhatsApp do grupo de trabalho do projeto Raízes Naturalistas).
1 - Entendimento das falas: Os atores começam entendendo as falas dos personagens na peça. Eles estudam o texto e identificam as intenções e emoções subjacentes em cada linha.
2 - Extração dos
verbos: A partir desse entendimento, os atores extraem os “verbos” ou ações
principais de cada sequência de texto. Cada verbo representa a intenção
principal de uma determinada sequência.
3 -Trabalho de
corpo: Depois de identificar esses verbos, cada ator trabalha para incorporar
essas ações em seu corpo. Isso pode envolver uma variedade de técnicas de
atuação física e exercícios de movimento. Mas parte principalmente de como cada
interprete expressa aquele verbo no seu corpo pessoalmente.
4 - Fisicalização
dos verbos: Os atores então “fisicalizam” esses verbos, o que significa que
eles encontram maneiras de expressar essas ações ou intenções através de seu
movimento e linguagem corporal.
5 - Encaixe das
falas aos verbos: Nesta etapa, os atores começam a emitir sons que se
transformam em sílabas e palavras que compõem o verbo, a partir da respiração e
do movimento. As palavras surgem de dentro do movimento. Cada ator cria uma
“matriz” para o verbo, que é a compreensão física de como ele expressa aquele
verbo. Uma vez que os atores tenham essa compreensão física, eles “encaixam”
suas falas nessas ações, combinando suas linhas com os movimentos
correspondentes que desenvolveram.
6 - As falas do
texto escrito saem a partir do texto: Neste ponto, vemos como a matriz gerada
pelo verbo transforma a vocalidade dessas falas. A matriz é a forma única que
cada ator tem de expressar o verbo, e isso influencia a maneira como as falas
são entregues.
7 - Levantamento
da cena: Com todas essas peças no lugar - o entendimento das falas, a extração
dos verbos, o trabalho de corpo, a fisicalização dos verbos e o encaixe das
falas aos verbos - a cena é então “levantada”. Isso significa que todos os
elementos são reunidos para criar a performance final.
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