"Alforrias de Papel": virando cortiços pelo avesso por Fernando Bustamante
Está em cartaz Alforrias de papel, a mais recente peça da Cia. Ocamorana, grupo que, bem na contramão de marés e modismos que tudo arrastam, vem mantendo acesa a chama de um teatro que escova a história a contrapelo, como propunha Walter Benjamin.
Para melhor entendermos o que veio à tona na escovação a contrapelo que sua peça faz da obra O cortiço, de Aluisio Azevedo, vale uma pequena digressão sobre a história do teatro. Quando, no século XIX, irrompe nos palcos o naturalismo, ele trouxe pela primeira vez a representação da vida dos que carregavam o fardo de uma sociedade fundada na exploração sobre as suas costas. E isso mudou tudo. Gerhart Hauptmann, por exemplo, ao colocar no palco a revolta dos tecelões da Silésia, incitou a identificação do público, a sua revolta e a censura da polícia, que sabia do poder incendiário da peça.
Não foi à toa que tanto Erwin Piscator quanto Bertolt Brecht declaravam abertamente o naturalismo como seu antecessor artístico. Aqueles, os pais do teatro épico, ou, nas palavras de Brecht, do “teatro de uma era científica”, posto que é feito para homens e mulheres que – idealmente – desejam interrogar o porquê das coisas serem como são, tomaram heranças fundamentais do naturalismo.
Raymond Williams
aponta cinco fatores do drama naturalista que foram extremamente influentes na
posteridade: a admissão do contemporâneo como matéria do drama; o tema nativo;
a forma da fala cotidiana; a ênfase na extensão social, ou seja, que seus personagens
não precisariam ser de nível social elevado; e, por fim, o secularismo, que
excluía o sobrenatural e o metafísico da agência sobre a ação dramática.
No nosso
naturalismo romanesco, tais componentes estiveram presentes e abriram uma
possibilidade para vermos componentes fundantes da nossa sociedade que, em
movimentos literários como o indianismo, ou diretamente não figuravam, ou
apareciam distorcidos pelas lentes mistificadoras da criação de um mito
fundador. Como aponta Antonio Candido acerca d'O Cortiço, “Aluísio foi (…) o
primeiro de nossos romancistas a descrever minuciosamente o mecanismo de
formação da riqueza individual. (…) [o dinheiro n'O Cortiço] se torna
implicitamente objeto central da narrativa, cujo ritmo acaba se ajustando ao
ritmo da sua acumulação, tomada pela primeira vez no Brasil como eixo da
composição ficcional.”
Em que pese tal
ponto forte na narrativa do romance de Azevedo – que é capaz de mostrar nas
peculiaridades de um Brasil atrasado a luta inescrupulosa para enriquecer do
português João Romão e o seu contato direto com os trabalhadores que habitam o
cortiço do qual é dono – é preciso ver que o livro apresenta inúmeros pontos de
mistificação de nossa realidade. A ideologia naturalista em sua vertente mais
retrógrada, que apresenta o homem como puro fruto de seu meio, e o homem pobre
como embrutecido e bestializado, aparece aí, como n'Os Sertões, de Euclides da
Cunha, em toda sua crueza.
É o retrato da
redução dos homens a animais – e no caso do livro de Azevedo isso concerne
fundamentalmente os habitantes do cortiço, sendo, portanto, as camadas
populares as personagens figurados como presas de seu ambiente em um sentido
determinista, em que a sexualidade e a violência predominam como fatores
cruciais da desgraça. Seguindo a teoria reacionária em voga, Azevedo faz do
meio e da raça os motivos fundamentais das mazelas, ainda que o português João
Romão também influa no decorrer dos fatos pela força de sua ambição e pela sua
acumulação de capital, que “disciplina à medida que se disciplina, enquanto o
sistema metafórico passa do orgânico da natureza para o mecânico do mundo
urbanizado”, como aponta Candido.
Tomando o cortiço
como alegoria, Azevedo expõe a sua visão da realidade miscigenada de nosso país
e suas desgraças – pela primeira vez figurando essas camadas sociais em tal
interação em nossa literatura.
É nesse ponto onde
para a obra de Azevedo que começa a de Márcio Boaro e da Cia. Ocamorana.
Piscator afirmou que é “(...) claro, o Naturalismo não é revolucionário, não
marxista no sntido moderno. Como seu grande predecessor, Ibsen, nunca passou do
ponto de colocar o problema. Gritos de exasperação se encontram onde deveríamos
ouvir respostas.”
Brecht, ao tratar
de Stanislávski, nos situa ainda melhor ao dizer que “ele pode satisfazer
diversos interesses sociais, embora mal o da investigação social, apesar de ser
possível utilizá-lo também para servir este campo de interesse. Como sabem,
alguém que deixa cair uma pedra ainda não formula assim a lei da gravidade, e
tão-pouco alguém que descreve com precisão a queda de uma pedra. (…) Parece que
ele nos diz simplesmente, tal como a natureza: interroguem-me. E, naturalmente,
ele não será tão bom como a própria natureza. A imagem, feita mecanicamente e
posta a serviço de muitos fins, terá de ser forçosamente muito imprecisa.”
É pela via da
interrogação da imagem imprecisa composta por Azevedo que Alforrias de papel coloca em cena a miséria do cortiço e o
alpinismo social de Romão não mais como problemas ligados ao meio e à raça, mas
como relações sociais; não mais como determinantes imutáveis, mas como
construções humanas e possíveis de serem mudadas. É a passagem de uma atitude
naturalista (e, portanto, fatalista e conservadora) para uma apresentação em
chave épica dos problemas, que busca apresentar suas raízes e sua possibilidade
de transformação.
Essa atitude em
cena demanda também outro tipo de espectador, o tipo científico, que, nas
palavras de Brecht, não deixe sua razão junto com o casaco na chapelaria (nos
ajudará o fato de não termos chapelarias em nossos teatros?) É necessário um
espectador que procure questionar e entender.
Talvez, acostumados
que estamos tanto a arrebatamentos emocionais de tipo novelesco, ou, por outro
lado, com as concepções “modernas” (sic) de um teatro em pedaços, com
fragmentos, alusões, mergulhos profundos nos sentimentos de um “eu” agigantado,
simbologias herméticas e outras peripécias cênicas, não seja fácil se colocar
em sintonia com o que nos apresenta a Ocamorana, que exige algo diferente de
seu público.
Já na primeira
cena, presenciamos um denso diálogo que flagra o momento em que João Romão se
encontra num dilema entre falsificar a carta de alforria de Bertoleza e roubar
seu dinheiro ou não. Romão se confronta com o seu modelo de ser humano – a sua
imaginação recria o patrão que enriqueceu e voltou a Portugal – que utiliza
para convencer o ex-subordinado da justeza de seus atos todos os malabarismos
ideológicos que sustentarão a implacável trajetória para a riqueza a custo de
muito sangue e suor (dos outros). Como sintetiza Romão ao se referir a
Bertoleza: “ela deposita sua confiança em mim, mas eu preciso depositar a minha
no progresso.”
Em cada cena somos
convidados a ver na vida das personagens as determinações de classe, raça e
gênero que regem seus destinos, mas, diferente da obra de Azevedo, estas nos
são apresentadas como determinações sociais, nunca naturais; e, sobretudo,
vistas pelo prisma do “estranhamento”, ou seja, de sua desnaturalização: as
coisas são assim, mas não precisam ser.
Isso se dá de forma
mais explícita na cena mais avassaladora, e que convencionalmente teria sido
feita numa chave dramática de modo a levar o público às lágrimas. Mas aqui,
somos convidados a pensar. Trata-se da cena em que Bertoleza é descartada por
Romão em nome de seu casamento com a filha de Miranda, visando seguir sua
ascensão social. A mulher, ex-escrava de ganho, a duras penas juntou o dinheiro
para sua alforria. A vida com João como amante lhe permitiu coisas que sua cor
e seu sexo jamais permitiriam, o que é marcado a cada passo da jornada, como no
episódio em que o português lhe convence a roubar telhas, o que para ela
sozinha seria impensável, dado o tamanho da punição para uma negra ladra. Ao
ser abandonada, vendo-se na iminência de voltar a ser escrava de seus antigos
donos, Bertoleza decide tirar a própria vida. Mas aqui, o suicídio é precedido
de um embate verbal com João Romão, em que a mulher lhe joga na cara tudo o que
ele só conseguiu obter pelo trabalho dela. A atriz Monica Raphael, em aparte ao
público, toma o cuidado de alertar que a cena que se segue não é o que
Bertoleza diz, pois os anos de submissão a condicionaram ao silêncio, mas sim o
que poderia ter dito se as circunstâncias fossem diferentes.
Assim, a relação
que se estabelecesse entre as circunstâncias que “determinam” os personagens se
dá em uma chave radicalmente diferente da visão naturalista que impregna a obra
de Azevedo. Como diz Rita baiana na conversa entre as mulheres e o que passam
nas mãos dos homens: “O problema não é nascer mulher. O problema é viver em um
mundo onde os homens pela força criaram uma outra natureza.”
O problema, então,
está nas relações sociais de opressão e exploração. Conforme diz Brecht, “A
nossa atitude crítica vem do fato de termos ganho muita confiança na capacidade
humana de trabalhar e inventar, e uma desconfiança em relação à ideia de que tudo
tenha de ficar na mesma até quando está mal, como o são as instituições do
nosso estado.”
O que a Ocamorana é
capaz de fazer, virando pelo avesso o cortiço de Romão, é escancarar as
relações de poder que fazem as coisas serem como são, e, por outro lado,
mostrar para nós, nas frestas dessa dominação, a capacidade humana de trabalhar
e inventar das Bertolezas e Ritas Baianas dos muitos cortiços. O que leva
Bertoleza a se tornar vítima de Romão? Claro que a gritante desigualdade em
suas posições sociais a coloca à mercê do português, mas é também sua crença na
boa índole do homem e a materilização desta na alforria forjada que a submete.
Como diz o espectro do patrão que aconselha Romão a cometer a fraude, “Mesmo se
conseguisse esta chamada 'alforria', iria continuar pobre, analfabeta, preta e
mulher”. A peça nos mostra que as alforrias de papel são a regra desde os
tempos de Azevedo até hoje em nossa sociedade, mas não instiga uma postura
passiva: quer que seu público entenda como operam as engrenagens dessa
exploração e opressão secular, a fim de que o entendimento e a revolta frente à
espúria associação dos que estão por cima nos leve à ação.
Além do que, o
grupo e o diretor dão prova de uma encenação em que tudo contribui com esse
intuito, desde o cenário simples e funcional, uma atuação sóbria e certeira, os
músicos que encerram a peça com a “Prova de carinho” de Adoniram – uma corda mi
que nunca existiu no cavaquinho. O fim da peça, com a referência ao poema do
Brecht “Sobre a violência”, é um convite a que saíamos do teatro dispostos a
desnaturalizar todas as alforrias de papel de nossa sociedade e virar
correnteza pra destruir as estreitas margens que nos oprimem.
Comentários
Postar um comentário