"Alforrias de Papel" - Iluminação por João Alves

O grande desafio da iluminação do espetáculo "Alforrias de Papel" foi o da escolha. Um projeto de espetáculo épico a partir das raízes naturalistas do teatro político, faz a gente refletir acerca da função estética da luz em ambas escolas e diante da história do teatro político desde o final do século XIX até os dias de hoje. Buscando um teatro político que seja tributário à experimentação estética não tem como não considerar o processo experimental de seleção de elementos diversos e até antagônicos para serem utilizados na cena. É neste ato de coragem de justapor elementos que nascem avanços estéticos.


Por um lado o naturalismo, principalmente o praticado por André Antoine, foi reconhecido por suas experimentações com a luz de gás e depois com a luz elétrica. Buscando efeitos naturalistas a iluminação de Antoine buscava simular cenários e passagens de tempo, atmosferas de ambientes reais, ou seja, imitar os meios nos quais os seres humanos eram colocados para serem estudados dentro das circunstâncias da obra. Podemos dizer que, por conta de avanços técnicos e até pela função cientificista da cena, a iluminação naturalista é impelida a superar a iluminação realista na capacidade de representação da realidade.


Bertolt Brecht por outro lado exorta que a iluminação das peças épicas sejam “claras e uniformes”, portanto, a peça é iluminada em sua totalidade por uma geral aberta. Essa indicação do encenador alemão tem como intuito deixar a mostra tanto a atuação quanto traquitanas de cena, deflagrando assim a construção daquela encenação e, por consequência, distanciando do espectador aquilo que é apresentado. 


Mas como alerta Roberto Gil Camargo em Função estética da luz: “O excesso de real pode parecer tão enfadonho quanto o excesso de não real”. A luz de "Alforrias de papel” buscou não ser uma luz nem totalmente realista, nem totalmente épica, misturando recursos das duas estéticas e agregando ainda elementos expressionistas. 

Como a dramaturgia da peça é particionada em quadros, buscou-se em cada um deles  ambientar um espaço específico e a passagem de tempo aos moldes do naturalismo: o gabinete de João Romão, uma rua do cortiço no meio da noite, o quintal das lavadeiras ao amanhecer, a casa de Miranda num final de tarde, a venda de João Romão no meio de um dia, a cozinha de João Romão numa tarde, uma praia ao entardecer, o fogo entrando em uma casa do cortiço durante um incêndio ou um bar de rua do Rio de Janeiro no meio do dia. O diálogo com as artes plásticas é elemento inspirador e provocador para a construção da ciência da luz.  Alinhado com a paleta de cores proposta pela cenografia e pelo figurino, buscou-se dialogar com as obras de Almeida Junior e seus amarelos, cáquis, beges e marrons pronunciados. Para valorizar a paleta de cor optou-se por usar filtros de correção do alaranjado de 1/4 nos refletores Fresnel. A noite foi representada por uma luz azulada de refletores LED buscando imitar o filtro físico Congo Blue (L181), com seu azulado pesado e escuro. O amanhecer era feito com uma transição lenta, no tempo da cena, que ia do azul, passando para o âmbar da iluminação de um lampião de querosene e chegando no amarelo da luz solar. A casa de Miranda era representada pela marcação de um gobo de janela em um refletor elipsoidal de 50º, que, além de iluminar o ator com uma luz solar quando o mesmo estava olhando a janela, projeta o desenho da mesma no chão da sala insinuando a luz de um pôr-de-tarde. A cena de fogo no cortiço era feita através de um efeito de operação manual em que se sobrepõem duas programações nas quais a intensidade dos refletores variava como se fosse o bruxulear do fogo. 

Buscando a iluminação distanciada proposta por Brecht optou-se por usar uma geral uniforme em única cena, a Cena do Monjolo, justamente uma das cenas mais subjetivas, onde Jerônimo e Bertoleza realizam um diálogo de surdos sobre sua história pregressa e realidade presente. A luz aberta o tempo todo, faz com que em nenhum momento nos envolvamos nas narrativas de foro íntimo e pessoal, nem nos deixemos levar pelos momentos poéticos presentes nos solilóquios. A luz geral mostra a construção dos atores sobre a subjetividade das personagens e tira a intimidade confessional presente no texto, deixando espaço para a reflexão distanciada. Os músicos, colocados à vista do público no proscênio o tempo todo, são por muitas vezes sugeridos por um contra luz, revelados pela luz geral, ou apontados por um foco, tornam-se um elemento de estranhamento com seus instrumentos modernos e com seu olhar onipresente no espetáculo, quase como se uma parte do público estivesse ali o tempo todo observando a cena contribuindo assim para a ideia de construção cênica. A engenharia da cena ainda é revelada pelo posicionamento de dois refletores Colortran no proscênio à vista do público, usado tanto para reforçar a luz do lampião ascendido em determinado momento da cena das lavadeiras quanto durante a cena do fogo para emular o fogo. Também na frente de cena a vista do espectador é colocado um refletor Source PAR usado para projetar a sombra dos atores na roteada ao fundo.  ¹ CAMARGO, Roberto Gill. Função Estética da luz. São Paulo: Perspectiva, 2012. P. 94.

Os recursos expressionistas de iluminação contribuíram para trazer estranhamento para  os momentos em que a subjetividade burguesa é colocada em foco, e também para reforçar momentos de subjetividade proletária cindida. Para isso usamos de recursos não-convencionais de posicionamento da iluminação para causar reflexão em metais da cenografia, deformando de modo expressionista a fisionomia das personagens e a cenografia, intensificando gestos através de ampliação de sombras na rotunda, conseguindo assim, pela estranheza, afastar o público da identificação com o discurso das personagens. Foram usados pés de galinha e torres laterais para gerar esses efeitos em determinadas cenas. 

A luz de "Alforrias de Papel” é  a tentativa de pesquisar uma luz experimental, que bebe de recursos de escolas estéticas diversas, mas contundente e coerente no objetivo de construir uma diálogo imbricado com um texto contemporâneo que é tributário ao experimentalismo político que veio antes dele. De cada estética que nos inspirou tentamos escolher o que servia e funcionava para iluminar um determinado discurso, seja de uma cena específica, quanto da peça como um todo. Um processo de “lego”, de "catar selecionadamente” para construir reflexões imagéticas.  


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