Diálogo: A importância do NATURALISMO por João Alves

Leitor - Naturalismo! Porque você está interessado em algo tão velho? . 

João Alves - Me interessa fazer um teatro político, um teatro com função social. Foi com os experimentos da escola naturalista que se demos os primeiros movimentos definidos em direção a uma função social da arte. Émile Zola propõe em seus textos O Romance Experimental e o Naturalismo no Teatro uma metodologia experimental científica para tratarmos da realidade. Mas isso não era total novidade, como o próprio Zola alertou, o método experimental já tinha aparecido na Introdução ao Estudo da Medicina Experimental de Claude Bernard. O que Zola fez foi adaptar o método da ciência para a teoria científico literária. 


Leitor - Naturalismo é uma forma estética do século XIX, nós evoluímos bastante no século XX com relação ao teatro e chegamos ao século XXI com possibilidades outras de dramaturgia e encenação


João Alves - Não é porque tem coisas ali que não nos cabe que tudo que está ali é passível de ser jogado fora. Como diz o velho ditado: não podemos jogar a criança fora com a água do banho. Sim, já desenvolvemos várias outras formas e até evoluímos o naturalismo durante o século XX. Mas a história da literatura moderna e do teatro moderno começa com o naturalismo. Não podemos ignorar esta escola se pretendemos investigar uma arte  com consciência social. Piscator, Brecht e Peter Weiss souberam olhar para o naturalismo e entender o que havia de elementos interessantes para o teatro que vieram a desenvolver. Olhar para o passado é importante. Ser tributário ao que veio antes e entender o porque veio é fundamental para avançar. A superação dialética parte do pressuposto de manutenção de elementos da tese e antítese. O pão é a superação da farinha e da água, mas carrega elementos de ambos transformados. O teatro político enquanto superação do naturalismo carrega também elementos desta escola. Dentro de minha ética: assim como tenho que conhecer muito bem  a farinha para fazer pão, preciso conhecer o naturalismo para fazer pão.


Leitor - Mas o que poderia existir de inovador esteticamente para a função social da arte nesta escola? Não vejo como um teatro que tenta reproduzir o cotidiano de forma naturalizada possa ser revolucionário. 


João Alves - No método experimental do Naturalismo, o ser humano não é mais uma abstração intelectual, mas um ser determinado pela natureza na qual está inserido. Portanto, tanto o humano quanto o meio no qual está inserido são importantes para estudarmos ações e situações e delas tirarmos reflexões. O naturalismo está no âmbito da ciência, usa metodologia científica: olhar pelo microscópio, dissecar,  radiografar etc, são técnicas a serem aplicadas em cena para melhor entendermos as causas dos sintomas. Poderíamos dizer que o Realismo, escola imediatamente anterior ao naturalismo, ficava somente no sintoma, o naturalismo por outro lado vai em busca de causas daquele sintoma.


Leitor - Você está falando então que este método transforma o palco em um grande laboratório científico da vida humana. Interessante. Mas me interessa bastante a forma como isso vem a acontecer. Fico imaginando aqui uma cena bem clichê: dramaturgos, encenadores  e atores todos de jalecos e outros equipamentos de proteção individual num laboratório cheio de tubos de ensaio e máquinas de medição científica. 


João Alves - Achei sua cena bem hollywoodiana e romantizada. Vamos tirar o romantismo da ciência. Nem todo cientista veste jaleco branco, nem todos cientistas usam tubo de ensaios, máquinas de medição e EPIs. Temos que lembrar que antropólogos, geólogos, historiadores etc também são cientistas e não se vestem desta forma clichês e usam outras ferramentas para produzirem conhecimento através de estudos aprofundados. Zola nos exorta ao método da observação, no qual coloca o romancista e o dramaturgo como analistas dos seres humanos determinados pela natureza, meio social onde está inserido.  Ao tirar deduções destas incursões sobre as causas sociais de um tipo comportamento, o artista vira um experimentador científico, que é mais do que um simples observador. A obra é como se fosse uma ata, um relatório, de uma experiência. Sua pesquisa, no caso do teatro, se traduz em uma ação cênica na qual as personagens provam seu comportamento através de uma sucessão de fatos relacionados com o determinismo dos fenômenos que foram estudados. 


Leitor - Então a tentativa de dominar a realidade começa com dramaturgos passivos e heróis passivos do naturalismo. 


João Alves - Sim. O estabelecimento da causalidade social tem início com descrições de situações em que todas as ações humanas são puras reações. Temos causalidade é predeterminação. Observemos a peça Os Tecelões de Gerhart Hauptmann. No primeiro ato os tecelões entregam o tecido pronto para o fabricante Dreissiger, onde já observamos a hipótese desta entrega: a miséria na qual estão inseridos que é apresentada junto com a mercadoria. No segundo ato primeiramente as reais condições de fome e penúria na casa de uma família de tecelões é mostrada na cena e logo em seguida, como reforço, é narrada ao estrangeiro Jäger. No terceiro ato em uma taverna a situação dos tecelões vira objeto de discussão dos operários e depois é descrita ainda para o caixeiro viajante. O quarto ato apresenta o  ambiente do pai de família do capitalista Dreissiger de forma dramática, mas mesmo assim em seu início tem um pequeno diálogo acerca daqueles que estão fora deste ambiente, mas que são parte fundamental do estudo da peça, os tecelões. E no quinto e último ato na casa do velho tecelão Hilse, são narrados os acontecimentos da revolta dos tecelões que apareceu no final do ato anterior, com a descrição do que aconteceu nas ruas. 


Leitor - Hauptmann coloca trabalhadores na cena, não é a vida dos tecelões, nem  o trabalho explorado ou a fome, nem as situações políticas que levam a ação. Diante de todo esse cenário a ação é a revolta, que é o verdadeiro tema da peça e ousaria dizer que é a personagem principal. 


João Alves -Veja quanta coisa você conseguiu tirar de reflexão apenas ao rememorar as linhas básicas dos atos de uma peça naturalista. Veja como observar estes personagens em seu meio social é importantíssimo para entender que não existe mágica do destino inexorável. O naturalismo foi responsável por colocar os trabalhadores no centro da cena e das letras, também mostrou que a ação é fruto de seu contexto e meio social.  Mas, como muito bem nos alerta Bertolt Brecht, para a agitação política proletária não basta colocarmos a realidade como simples ilustração no palco, também é necessário dela tirarmos consequência. Não basta colocarmos o bloco de granito bruto no meio da cena, dele temos que tirar alguma coisa. Mas isso é uma longa discussão que podemos deixar para outro diálogo, a fim de fazer uma boa conversa sobre. 


BIBLIOGRAFIA

BERTHOLD, Margot. História Mundial do Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2011. 

BRECHT, Bertolt. A Compra do Latão 

_____________. Diário de trabalho, volume 1: 1938-1941. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. 

SZONDI, Peter. Teoria do Drama Moderno (1880-1950). São Paulo: Cosac e Naify Edições, 2001. 

HAUPTMANN, Gerhart. Os Tecelões. São Paulo: Brasiliense, 1968. 

PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999. 

ZOLA, Émile. O Romance Experimental e o Naturalismo no Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1982.

Comentários